Professores criativos : Dilmara Coelho - Desenhar é uma arte


Na vida escolar damos um salto gigantesco em nossa maneira de nos comunicarmos, tanto na linguagem oral, quanto na escrita. Mas quando falamos em linguagem visual essa evolução que deveria ser natural, é de repente bloqueada quando finalmente chegamos ao ponto de desenhar uma casa, uma árvore cheia de frutinhas, duas nuvens e um sol.

Há quem diga que desenhar exige técnica, outros que é um dom, o fato é que é preciso oferecer às crianças oportunidades para aperfeiçoarem seus trabalhos baseados na observação do mundo real, sem estereótipos.

Não me considero boa desenhista, apesar de ter me formado em Artes Plásticas. Lembro-me que em minha primeira aula de desenho técnico, a professora desenhou na lousa duas linhas paralelas e perguntou se aquilo parecia uma estrada, ela mesma afirmou que sim, se acaso você estiver em um helicóptero.

Uma mesa retangular, quando representada no plano bidimensional normalmente apresenta-se em forma de losango. Ou seja, o desenho deve ser da forma como eu vejo as coisas e não da forma como elas são. Assim sendo, conclui-se que: se você quer aprender a desenhar vai precisar de OBSERVAÇÃO.

Durante minha trajetória como professora de Educação Infantil sempre tive um olhar curioso sobre o percurso da criança na conquista do desenho. E assim como é comum algumas características com relação à aquisição da escrita, no desenho, que também é uma linguagem, a forma de representação e evolução são bem semelhantes entre a maioria das crianças, de acordo com Piaget, sobre as Fases de desenvolvimento do Desenho.

Destaco neste período três crianças que fizeram brilhar meus olhos com os desenhos que me apresentaram, e claro que não pela sua estética, mais pela sua percepção visual e domínio de algumas técnicas. Em 2011, após ter assistido com a turma o filme Enrolados, que conta a historia da princesa Rapunzel, pedi para as crianças que desenhassem o que haviam gostado no filme.

Obviamente que a maioria das crianças desenhou a torre bem grande e alta assim como ela é, e a princesa pequena ao lado da torre.

A maioria fez assim, menos o Lucas. O Lucas (5anos) fez a princesa no tamanho máximo da altura do sulfite (em modo paisagem) e a torre bem pequena e centralizada.

Olhei para o desenho e falei:  "Nossa, a torre é pequena!" E ele logo justificou: "É porque ela está lá longe". Ele usou uma técnica chamada perspectiva, ou seja, criar a ilusão de profundidade no desenho alterando a proporção das figuras.

A obra Monalisa de Leonardo Da Vinci, se tornou uma obra prima e um dos motivos foi por ter sido umas das primeiras obras com perspectiva. Lucas não era um aluno fácil, era levado e inquieto, mas dizem que os gênios são assim... rs .

Em 2013, desta vez com uma turma de 4 anos ( devo destacar que era o primeiro ano desta turma na escola) enquanto a maioria das crianças ainda estava na fase da Garatuja, a aluna Maria se destacou com o seu desenho da Chapeuzinho Vermelho.

Pra começar, a personagem foi desenhada de perfil ( o que não é nem um pouco comum) as mãos tinham todos os dedos, os olhos olhavam para a lateral e possuíam longos e curvados cílios. Realmente espetacular!!! Sinto por não ter fotografado na época... Mas agora estou entusiasmada com um terceiro talento, o qual me despertou a vontade de escrever este relato.

Vitor, este é o nome do garoto que com apenas 5 anos consegue desenhar coisas incríveis... Ainda não sei o quanto ele é capaz, pois ainda estou o conhecendo, mas com certeza é um menino muito especial. Outra coisa que me chamou atenção sobre o Vitor são as suas fantásticas construções com Legos, o que demonstra uma capacidade criativa singular.

O primeiro desenho que despertou meu olhar foi este incrível robô amarelo. Reparem na simetria das formas, das cores... e a riqueza de detalhes?! Depois no segundo desenho ele representou a si mesmo junto com o pai. A escada começa de frente e depois vira (perspectiva), o tamanho dele em relação ao pai (proporção), os detalhes: estampa na camiseta (ele sempre desenha estampas nas roupas), cadarço no tênis, barba... (observação).

Reparem que em cima da mesa tem uma vaso de flores (sobreposição) e um boneco de lego. Como disse anteriormente, ele adora Legos.

Quando me deparo com crianças assim, fico me perguntando: "Como descobriram tudo isso sozinhos?! "

Espero sinceramente contribuir com o desenvolvimento do Vitor e logicamente aprender e me encantar com ele, pois esta história de desenhar não é tão fácil quanto parece e com certeza vai muito além das reflexões de uma professora metida a artista.