A falsa zona de conforto da educação

Há 25 anos atrás eu estava cursando o magistério , lendo "Escola e democracia" do Demerval Saviani. Tenho certeza que boa parte dos educadores que me acompanham aqui também já leu. Vi ali naquelas reflexões, uma luz no fim do túnel...

No livro , ele conta sobre a história da educação no Brasil e suas fases: escola tradicional, tecnicista e escola nova.

Faz uma metáfora curiosa sobre a lei da curvatura da vara ( que se você curvar uma vara extremamente para a direita, ela irá em seguida para o lado extremo até que volte ao seu prumo...). Nesta metáfora , faz uma analogia ao processo de mudanças na educação no Brasil. Para ele a escola tradicional representava um extremo em vários sentidos; só alguns tinham direito, conteúdos fechados e pouco críticos.

A escola tecnicista foi ao outro extremo: acessível a todos, porém útil à era industrial e à necessidade de mão de obra especializada e mecânica.

Veio então a escola nova: o equilíbrio, a salvadora, a mais crítica...

Me tornei professora neste período, no qual surge a figura de Emília Ferreiro com um novo conceito: O sócio construtivismo.

Uma proposta baseada no protagonismo, onde o sujeito é dono de sua história e constrói seu próprio conhecimento através de vivências, trocas e a construção do pensamento crítico.

Meu coração queimou! Agarrei aquela proposta , li todos os livros, pesquisei, busquei outros autores, li Vygosky, Piaget , Ana Teberosky ...e vi muito sentido em tudo que aprendi (aliás, ainda vejo...)

Mas o que deu errado?

Por que ainda temos tantos problemas?

Fonte da imagem : http://porvir.org/



Vou fazer algumas considerações....

Acho que nunca existe um único motivo, mas sim vários.

Uma proposta pedagógica, por mais inovadora que seja, precisa ter o suporte de alguns aspectos na prática:

1- CONTEXTO:  Uma coisa que foi boa em um determinado lugar, não significa que terá o mesmo resultado em qualquer parte do mundo.
Não quero dizer que o sócio construtivismo não seja uma boa proposta, ao contrário, acho a melhor que já vi, mas para que algo funcione precisa de um contexto, Neste caso, a proposta em questão pressupõe trocas, interações , vivências , parcerias e o acesso livre ao conhecimento.

Na época, tínhamos acesso limitado à internet, a postura que o professor estava acostumado a ter era de "autoridade máxima na sala de aula", o detentor único do saber e acho que ainda não estava disposto a abrir mão deste posto (se é que hoje está...)

Falar que naquele momento o professor passaria a ser o "mediador" do conhecimento era algo muito vago que entrava por um ouvido e saía pelo outro... Ou seja, tínhamos um péssimo contexto para que a coisa acontecesse de fato.

2- SER UMA AUTORIDADE NO ASSUNTO:  Aqui falo do real sentido de autoridade, que é conhecer , compreender e até mesmo escolher , abraçar a proposta.

Se você entende o que o sócio construtivismo propõe, percebe que nada mais é do que um aperfeiçoamento consciente de como já aprendemos as coisas fora da escola: através da curiosidade, do contato, da troca, da observação e das vivências.

O professor-mediador, neste caso é aquele que intencionalmente provoca a curiosidade sobre um determinado tema.

Começar uma aula falando : "hoje vamos aprender sobre hidrelétricas" nunca terá o mesmo efeito do que com perguntas curiosas como: "como será que a água é capaz de gerar eletricidade?" ou "Vocês sabiam que boa parte da energia elétrica é produzida pela água?"

Entendem, o professor seria aquela pessoa habilidosa em provocar diálogos. Parafraseando Ruben Alves : " Em colocar a pulga atrás da orelha..."

O problema é que o professor não assumiu este papel, ou o fez timidamente...preferindo fazer o personagem mais chato: aquele que obriga a estudar porque vai cair na prova. Aquele que exige silêncio senão vai tirar nota, botar pra fora da classe...entre outras barbaridades que já ouvi...

Conhecer a proposta e dominar os conceitos é o início de um bom trabalho docente.

Para terminar, vou fazer um paralelo:

Há 20 anos estávamos em uma situação parecida com a que estamos agora - um momento de mudança, de romper com a zona de conforto e aprender o novo.

Naquela época o desafio era reavaliar a figura do professor e deixar para trás o modelo tradicional.  Lá atrás , a maioria se agarrou o quanto pode naquela zona de conforto que já não é nada confortável...

Os alunos não se interessam pela escola, não se concentram nos conteúdos impostos e que não conseguem ver sentido, e o principal e maior agravante: O conhecimento agora é mais do que  nunca livre e disponível a todos fora da escola.

Este novo formato de distribuição de conteúdo não estava disponível na primeira projeção sócio construtivista. Era a interação olho no olho mesmo.

Agora temos um update no modelo de interação. Ela acontece o tempo todo, em todo lugar. Online, off-line, não importa. Estamos sempre interagindo.

Hoje é assimilar que a forma de distribuição de conteúdo mudou e se aprende sim, muita coisa na internet.

Emília Ferreiro se aplica mais ainda hoje, Penso que se estivesse viva estaria vibrando com tantas possibilidades.

Então... é o momento! Leiam Emília Ferreiro, Vygotsky e agora especialmente Ken Robinson.
*Dicas de leitura - Ken Robinson



É hora de sair desta falsa zona de conforto e se abrir para o novo. Aprender é sempre bom.

É isto que dizemos aos nossos alunos, não é?

Débora Aquino - Educação Criativa



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