Comunidade Professores Criativos - Danilo Švágera

"Educar é transcender as fronteiras do imediatismo" Danilo Švágera


Ler (e escrever) é a arte de desatar nós cegos –  já dizia o velho Goethe. Por isso, há tanto, levo comigo esse hábito como uma maneira de registrar minha alma. Hoje, revirando alguns escritos antigos (nunca os jogo fora pois, de alguma forma, são pedaços do ‘eu’), me sou surpreendido com uma nota que escrevi, há 10 anos atrás, sobre educação. Naquela época, um recém-formado em Filosofia (havia dois anos) admirado com a arte de ser professor. Nele se lia:

“O sistema escolar é algo fascinante. É sistema pois diz respeito a um conjunto de interações, de conexões entre os membros que se afetam por diversos modos; é fascinante porquê se revelam surpresas diariamente. Leciono Filosofia. Quando me formei, na Ufmg, ouvia repetidas vezes sobre o lado negativo deste supracitado sistema. O dark side of the moon. Na prática, a teoria é diferente (citando o professor Gilmar). Ministrar aulas é o encontro da liberdade com a responsabilidade, do soltar com o conduzir. É uma experiência única, onde o professor - o artista - recria o espetáculo diariamente. O espetáculo criado possui sempre os mesmo 25, 35, 40 expectadores. Mas, contrariamente a um show, têm de ser diferente a cada dia. Por isso, digo-lhe, é o ator em constante movimento.”

Quão gratificante é guardar escritos e rememorar sua essência! Quantas coisas mudaram! Creio que escreveria textos e mais textos acrescentando informações que ocorreram nestes dez anos. Como só tenho espaço para um texto, irei atualizar um pouco (e, ademais, mais farei).
Dez anos se passaram desde que escrevi esse texto e, sobremaneira, ainda acredito piamente na educação. O mesmo brilho no olhar que se via naquela época, hoje ainda se vê. Quando fazemos o que amamos, não há situação que nos faça desistir. As menos favoráveis se tornam força. As adversidades se tornam desafios.
Com o tempo fui aprendendo que não basta sermos professores. Professor ‘professa’, é quase uma entidade. Vê-se, claramente, que eu ainda tinha a noção de ‘palco’ há dez anos atrás. Hoje não... hoje vejo que precisamos de educadores. Educar significa estar junto, aprender e ensinar, fazer parte. Não há destaque nem protagonismo – há participação. O aluno e o professor deixam de ser essas entidades incomunicáveis (a não ser pelo título dialético) e passam a ser pessoas buscando um conhecimento. E o tempo que me ensinou tudo isso...
Desde o momento em que ganhei um concurso de educadores mineiros, recriando uma missa barroca (nos moldes de época) com os estudantes; passando por quando participei do documentário “Devagar Escola” como educador convidado; até meu trabalho na Escola da Serra, lugar esse que recebeu do MEC o título de Escola Inovadora... tudo isso são fragmentos de uma trajetória que, acima de tudo, possui como tônica o desejo de ensinar – e aprender.
Educar é fugir do lugar comum. É o processo segundo o qual mostramos quem somos, buscando aperfeiçoarmos. Educar é ser protagonista não do ensino – mas da mudança. É aceitar que somos limitados – mas não limitantes.
Educar é a arte de desatar nós cegos. Termino parafraseando o início deste texto, buscando não o fim – mas sim evidenciar que, tal como esses escritos, educar é um processo que precisa se realimentar. Realimentemos a esperança no amanhã, no ensinar e no aprender. Tenhamos certeza que, diante do outro, embora às vezes pareça incomunicável, há algo fascinante que nos une: o mundo que nos cerca.
Educar é estar no mundo. É transcender as fronteiras do corpo – e presenciar a alma.


Danilo Švágera



Mestre em Educação pela Universidade do Estado de Minas Gerais (20014) e graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais (2007), Danilo Švágera apresenta uma trajetória como filósofo da educação, palestrante e pesquisador de pedagogias não tradicionais. Além de diversos trabalhos apresentados em congressos no Brasil, seus textos alcançaram países como Portugal e México. Possui ampla experiência como educador, trabalhando em diversas escolas de nível fundamental, médio e pré-vestibulares, como professor titular desde 2005. Desenvolve projetos educacionais que visam a formação ampla e crítica do discente, sendo premiado em 2012 no 4º Concurso para educadores. Atualmente faz parte da equipe da Escola da Serra em Belo Horizonte, atuando como Coordenador do Ensino Médio e educador de Ciências Humanas – escola premiada pelo MEC com o título de Escola Inovadora. 


                                     

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