A educação formal na perspectiva de um líder executivo

Vivemos em um momento em que a educação precisa ser repensada. Colocar as cartas na mesa e identificar claramente os problemas em busca de soluções objetivas e possíveis.

Educação Criativa  conversa hoje com Allan Pimenta, executivo de grandes empresas ha mais de 15 anos selecionando, desenvolvendo e liderando equipes.

A escola, como acreditamos, não deve estar isolada do mundo, mas
sim como parte dele (senão a mais importante) desenvolver pessoas.

Ed. Criativa - A escola é o lugar de desenvolver pessoas, nisto todos concordamos. Em seu olhar de educador, visto que sua área de atuação é também a educação corporativa, como você enxerga a educação formal hoje?

Allan - A educação corporativa é uma das ferramentas que utilizo para a gestão. Um dos papéis mais importantes de um líder é a capacitação do seu time, assim, somos todos educadores. 
Nas empresas recebemos pessoas com as mais diversas formações e experiências na escola formal ( desde a básica até a universitária), e a percepção geral é que os conceitos são trabalhados de forma rasa e pouco prática, sendo muitas vezes inviáveis para a solução dos problemas de hoje, sempre complexos e urgentes.

Ed. Criativa - Ou seja, a escola ainda ensina para um mundo que já não existe mais. As pessoas investem metade da vida aprendendo para uma prova que não tem relevância para o futuro. 
Você pode falar um pouco sobre como você percebe esse desencontro de realidades?

Allan - Não conhecemos os problemas de amanhã, mas é esperado que os profissionais estejam preparados para eles. Estudei em escolas de primeira linha , inclusive fora do país e percebi que existe um foco grande em entregar ao aluno as respostas, mesmo que eles não conheçam ou saibam formular as perguntas. Imagino que uma escola que trabalhasse a percepção do meio externo, a leitura dos fatos (a boa e velha interpretação de texto), a construção lógica de soluções e os treinasse para lidar com imprevistos poderia preparar melhor os líderes que o mundo precisa hoje - a liderança que de fato pode ser exercida por um profissional liberal, empregado de empresas públicas e privadas ou mesmo um empreendedor.

Ed. Criativa - Falta uma posição clara sobre a educação. A briga fica centrada em ideologias , mas o dia a dia não muda. 
Quais atitudes práticas você vê como possíveis por parte de quem está diretamente ligado às instituições de ensino formal (professores, coordenadores, diretores..) ?

Allan - Cada um deve puxar para si o protagonismo e não esperar soluções maiores que nunca vêm. Nas empresas utilizamos uma série de ferramentas como testes, avaliações 360° e assessments para mapear os gaps de competências e formação das pessoas. E, a partir disso priorizar e personalizar a capacitação delas. 
Se eu só reclamar que não recebo profissionais 100% preparados, simplesmente não alcanço resultados. Acredito que os educadores "formais" poderiam também puxar para si esta responsabilidade de entender o que cada um precisa e estimular que cada um busque suas respostas. As leis que regulam o ensino, o padrão que a escola impõe, a estrutura que tem à disposição são apenas "dados do problema" e com atitude e criatividade podem ser solucionados colocando cada aluno como centro da solução.

Ed. Criativa - Muitas vezes a falta de estrutura física acaba prejudicando o desenvolvimento  e esta é a principal queixa. O descaso, a não valorização profissional e até mesmo a falta de materiais.
Eu acredito na força da educação, então acredito também que isto pode ser superado, e estamos trabalhando para isso. 
O que você tem a dizer sobre estes três fatores: Descaso, não valorização profissional e falta de estrutura material?

Allan - Esta pergunta é complexa, e vou tentar responder sob a ótica de um gestor que também vive este dilema, como quase todos os profissionais realmente engajados naquilo que fazem. Para isso , quero dar luz a 4 conceitos que devem formar um ciclo para se alimentarem.

1- PROPÓSITO DE VIDA - O propósito é o motivo que me faz levantar todos os dias e ir em busca de algo. Ter clareza dele nos leva às melhores escolhas e decisões de tudo que nos cerca e que levarão mais próximos dele.

2- MOTIVAÇÃO 3.0 -  Este conceito (surgiu com este nome em um livro de Daniel Pink), veio de estudos relevantes que o desempenho e a motivação são melhor estimulados, através de significado, engajamento e autonomia do que por punições ou recompensas financeiras como ainda se acredita.

3- MVP ( Minimum viable product) - Conceito comum no mundo do empreendedorismo (ver lean startup) que diz que sempre devemos construir um minimo produto viável , que ofereça as funcionalidades básicas e diferenciais do produto ideal, que pode nunca existir se esperar chegar neste ideal.

4- EXPECTATIVA - A expectativa é o que criamos dentro de nós a respeito daquilo que esperávamos de alguém ou algo. Não sei de quem é a equação que acredito muito:


Assim, qual seria a estrutura mínima necessária para executar aquilo que acredito? 
O que espero de reconhecimento e valorização de outros que não posso encontrar em mim mesmo? 
A idealização de um modelo melhor não está me afastando da melhoria do atual?
Como ser dono da minha história e aproximar o que faço no dia a dia a partir do que tenho para chegar mais perto do meu propósito?
O que me motiva dia a dia e o que faço para alimentar esta minha motivação?

A partir destas reflexões que servem para o professor, para o executivo, para o médico ou até para o estudante, passa a ser menor o obstáculo da falta de estrutura, reconhecimento e atenção. que sempre serão menores do que o que merecemos aos olhos de nossas crenças pessoais.

Ed. Criativa - Para fechar nossa conversa, e já dizendo que foi muito produtivo nosso bate-papo, tem algo mais que você gostaria de comentar?

Allan - Realmente, a conversa foi ótima e me rendeu uma série de insights para o meu trabalho. Aliás , nas empresas nós buscamos inspiração em muitas fontes, inclusive nas escolas. Os educadores que abrirem os olhos para áreas aparentemente sem conexão com seu trabalho, podem se surpreender.

Estamos passando por transformações, que alguns dizem até ser a nova era... a era pós digital, onde certamente o papel da escola e das empresas será outro.
As pessoas estão valorizando mais seu auto-conhecimento e auto-desenvolvimento e nosso papel será de fazer isso acontecer gerando valor para elas. Daí , o foco da empresa muda de "vender produtos" para oferecer soluções,e da escola de "ensinar algo" para impulsionar o aprendizado. Ambas irão preparar melhor as pessoas não para bater uma meta ou passar em uma prova, ,as estarem preparadas para a vida. Obrigado.